"(...) Carlos Marighella foi abatido pelas forças de repressão da ditadura. Naquele momento elas não mataram apenas o militante intemerato de uma organização de luta, mas um líder que encarnava as aspirações de liberdade e justiça do povo brasileiro.

Os que assumem a grave responsabilidade de combater pelo interesse de todos tornam-se símbolos e constituem patrimônio coletivo. Carlos Marighella deu a vida pelos oprimidos, os excluídos, os sedentos de justiça. Ao fazê-lo, transcendeu a sua própria opção partidária e se projetou na posteridade como voz dos que não se conformam com a iniqüidade social."

Antonio Candido

Assassinado há 40 anos, situa-se entre aqueles que escreveram as mais importantes páginas da história de lutas do povo brasileiro: Zumbi, Sepé Tiaraju, Felipe dos Santos, Tiradentes, Cipriano Barata, Frei Caneca, Bento Gonçalves, Angelim, Antônio Conselheiro, o "monge" João Maria, Luiz Carlos Prestes, Francisco Julião, Leonel Brizola, Gregório Bezerra, Darcy Ribeiro e tantos outros. São nomes que ainda não saíram das sombras a que a elite insiste em relegar a nossa história. Trinta anos depois de morto, ele prossegue desafiando a generosidade dos vivos, e apontando, para o nosso país, um caminho de futuro, onde todos tenham saúde, educação, trabalho e moradia.
"É preciso não ter medo, é preciso ter coragem de dizer"
Marighella

“Não tive tempo para ter medo”


“Não tive tempo para ter medo”
CARLOS MARIGHELLA – HERÓI DO POVO BRASILEIRO

Por Roberto Mansilla
(Mestre em História – UFF e Professor de História da Rede Municipal do Rio de Janeiro)

Carlos Marighella, assassinado há 40 anos (04.11.1969), foi quem melhor encarnou a resistência à ditadura militar que pela coerção governou o Brasil durante 21 anos (1964-1985).
A história não é contemporânea de si mesma. Pela ótica da Lisboa quinhentista, o acidente de percurso das caravelas de Cabral representou uma descoberta. Segundo os índios pataxós de Monte Pascoal, significou uma invasão e, em seguida, um genocídio.
A história é também um jogo semântico. Embora os telejornais, hoje, pronunciem "guerrilheiros", onde antes diziam "terroristas"; "ditadura", onde antes falavam "governo"; "torturas", onde antes mencionavam "abusos"; o nome de Carlos Marighella ainda não se livrou da pronúncia clandestina. Há quem prefira silenciá-lo para não sentir-se questionado pelo que ele significa de firmeza de convicções e, sobretudo, idealismo centrado no direito de todos os brasileiros à dignidade e à justiça.
Marighella situa-se entre aqueles que, com seu sangue, escreveram as mais importantes páginas da história do Brasil: Zumbi, Sepé Tiaraju, Tiradentes, Cipriano Barata, Frei Caneca, Angelim, Antônio Conselheiro, Octavio Brandão, Luiz Carlos Prestes, Francisco Julião, Virgílio Gomes da Silva, Mario Alves, Carlos Lamarca, Apolônio de Carvalho e tantos outros. São nomes que ainda não saíram das sombras a que a elite insiste em relegar a nossa história. Em nossas escolas, e nos raros programas televisivos que se referem à história do Brasil, poucos conhecem a geografia semântica de termos como Palmares, Cabanagem, Canudos, Contestado, Farrapos, Praieira, Confederação do Equador, Coluna Prestes, Eldorado de Carajás.
Filho de imigrantes italianos, Marighella encontrou no Partido Comunista o esteio que lhe forjou o vigor combatente. Deputado federal constituinte, não se deixou cooptar por aqueles que, após a ditadura Vargas, buscaram um pacto político que não incluía os direitos econômicos das classes populares. Marighella não ambicionava o poder, mas o Brasil soberano, livre da submissão ao capital estrangeiro.
Por fidelidade a suas origens operárias, rompeu com o PCB para aderir ao primado da ação. Estava cansado de documentos e palavras, quando o momento exigia, como ainda hoje, mudanças radicais na estrutura social brasileira. Queria uma revolução. Porém, desde os anos 1930, a elite brasileira repete com insistência: "Façamos a revolução antes que o povo a faça". É o que se vê nesses supostos projetos contra a pobreza apadrinhados, em véspera de eleições, por aqueles que se situam entre os responsáveis pela escandalosa desigualdade social reinante no Brasil.
Uma nação ou uma pessoa que se envergonha de sua própria história corre o risco de perder raízes e identidade, qual colonizado que louva o colonizador e procura imitá-lo. A vida de Marighella foi um gesto de coragem ao dizer NÃO! ao terrorismo de Estado no Brasil. Quarenta anos depois de morto, ele prossegue desafiando a generosidade dos vivos, e apontando, para o nosso país, um caminho de futuro sem desigualdade social, exploração e concentração de renda nas mãos de uma minoria abastada.

Camarada Marighella, presente!

QUARENTA ANOS DE SAUDADE


Ademar Bogo

Carlos Marighella é daqueles que mesmo depois de assassinado ainda amedronta os inimigos. Comanda mesmo no silêncio, através das idéias e dos exemplos, exércitos de novas gerações que acreditam nas mudanças revolucionárias.
São quarenta anos longos e lúcidos que em combate ele nos foi tirado à força das fileiras. Quarenta anos de saudade dos mais velhos e de respeito dos mais novos que aprenderam a admirá-lo, mesmo não o tendo conhecido pessoalmente; mas que, sob o seu comando, integram hoje as centenas de trincheiras espalhadas pela pátria inteira.
Nasceu na Rua do Desterro e carregou a sina, desterrando-se e desterrado pelas condenações. Queria o campo; lá era o espaço da guerrilha, mas o tempo não permitiu que fizesse essa inflexão no destino da revolução.
Aprendera nos combates que, para cada ofensiva do inimigo, devia abrir outra frente política. Procurar caminhos alternativos e diversificados, pois é na ação que se faz a organização para acompanhar o movimento das mudanças. Assim sendo, em todo e qualquer avanço sempre deve haver a garantia da retirada. Cuidar de atacar para enfraquecer o inimigo, enquanto se fortalece a própria força.
A geração de Carlos foi de rupturas. Seus comandantes tinham um nome só. Por isso “Carlos” é escrito no plural: Carlos Prestes, Carlos Lamarca e Carlos Marighella. A história esculpira a pancadas cada qual.
A geração de Carlos era universal, porque o imperialismo também o era. Golpeava em todos os lugares do mundo: naqueles já vencidos e nos que ainda se haveria de vencer.
Com sua morte silenciaram as massas e no silêncio a nação perdeu a graça. Não pode haver vitórias quando os povos perdem os seus líderes mais conscientes. Eles compunham a parte que pensava diferente, sonhava diferente para o tempo futuro. Combatiam aqueles que ditavam as diferenças, matavam seus irmãos e bajulavam os capitalistas. Não podem ter vencido aqueles que ao império haviam se vendido.
A geração de Carlos se recolheu e guardou os fuzis. As massas foram ensinadas a empunhar bandeiras. Encheram as alamedas e as avenidas, ouvindo o próprio grito dos aflitos; e o barulho permitiu que o algoz se juntasse a nós.
Disse ele:“A direção ideológica é a condição fundamental para o êxito da direção política”. Quando os êxitos não são êxitos e, nas vitórias ninguém é derrotado; na tática existe algo errado.
Questão de tempo. Se é verdade o que ele defendia, que os meios a serem empregados nas lutas, são aqueles que as massas aceitam, embora os revolucionários devam ajudar a escolhê-los, os fuzis e as bandeiras um dia separados, voltarão e servirão nas mesmas fileiras.
Assim a história encontrará o seu rumo, pois as massas e a vanguarda dela farão o mesmo resumo. Isto sempre ocorre quando as gerações se reencontram e se contam os acertos e as perspectivas, daí renascem as táticas ofensivas.
Carlos Marighella, nunca deixará de ser uma lembrança combativa; a sua imagem continuará viva na memória e em nossos corações. Se os seus exemplos recontam o seu destino, se espalharão como um perfume fino, nas consciências das novas gerações.

Marighella vive!

05/11/2009
O que Antonio Candido, Florestan Fernandes e Jorge Amado há muito enxergaram com profunda admiração, ainda falta muito para que uma maioria abra os olhos e aprenda um pouco mais sobre a vida de Carlos Marighella, que sempre lutou por uma sociedade justa, igualitária e humana. Na esteira de atividades que ocorrem por todo o país em um esforço coletivo de resgate da sua história, houve nesta quinta-feira (5/11), no auditório da Alerj, entre 18h30 e 21h, uma homenagem a esse poeta guerrilheiro, organizada pelo mandato Marcelo Freixo (PSOL), MST e movimento Consulta Popular.

Durante a cerimônia, houve o lançamento do livro Carlos, a face oculta de Marighella, pela editora Expressão Popular, de Edson Teixeira da Silva Júnior, professor do Centro Universitário de Volta Redonda e doutor em História pela UFF. Em seguida, houve um debate com participação do deputado, do autor do livro e também de Carlos Eugênio Paz "Clemente", que conviveu com Marighella que o comandou na organização Aliança Libertadora Nacional (ALN). "Estamos em uma jornada nacional em homenagem a Marighella. O objetivo é passar para quem não viveu aquela época o exemplo desse lutador", explicou Maria Júlia, da Consulta Popular.

Edson, mais conhecido como Edinho, apresentou o panorama histórico em que a imagem de Marighella se reduziu, para a opinião pública, a de um mero assaltante de bancos ou terrorista. O pesquisador reunidos dados desde a infância do fundador da ALN com o objetivo de apresentar um perfil quase desconhecido do grande público, de um homem terno, solidário, que pregava o amor e a tolerância, na vida pessoal e também na política. "Ele enxergava já naquela época a necessidade do exercício da tolerância entre aqueles que lutavam no campo da esquerda, diante do inimigo comum, um exemplo para nós da esquerda brasileira que nos digladiamos internamente", destacou Edson.

O militante da ALN, emocionou o público no auditório ao falar sobre os tempos em que caminhava lado a lado com o poeta guerrilheiro. Clemente tinha apenas 15 anos quando ingressou na ALN e se tornou companheiro de lutas de Marighela. "Como podemos dar a vida a uma causa sem emoção? E Marighela é um exemplo de homem que viveu conforme aquilo que pregava, um homem inteligente, que se formou na Politécnica da Bahia. Ele foi deputado federal aqui no Palácio Guanabara, quando o Rio era a capital do país. Só pegou em armas para enfrentar a tirania", declarou Clemente, autor do livro Viagem à luta armada, sobre suas experiências sob o comando de Marighella.

Marcelo Freixo chamou a atenção para o fato de a imagem da coragem de Marighella ter prevalecido com o passar do tempo em contraponto a sua personalidade de caráter reflexivo: "Embora faça essa observação, é importante que se destaque a coragem, porque esta se contrapõe ao medo. E o medo é produzido de modo estratégico. Há uma produção do medo que nos leva ao isolamento, ao individualismo, à identificação do inimigo. E hoje esse medo não está direcionado à juventude de esquerda, mas ao jovem pobre, negro, da favela, a quem sobrou nessa nossa sociedade de mercado. Há um debate para se saber quem é gente ou não, quem deve ser eliminado no seu significado de existência, quem deve morrer mesmo que ande por aí. A luta da esquerda precisa ser pedagógica para que a gente consiga dialogar com quem tem a face marcada pelo terror".
Freixo destacou ainda que não há democracia para todos no país. "Hoje há tortura, por exemplo. Basta ir às carceragens, às delegacias. Não vivemos em um estado democrático de direito. Não podemos dizer isso enquanto um terço da população vive em estado de exceção, em um contexto onde o estado se associa à barbárie. É por isso que essa luta, da qual fez parte Marighella, precisa continuar, numa luta permanente. E o mandato, em articulação com o movimento social, tem de fazer do parlamento uma trincheira da luta política mais ampliada".

Eleito com 5 mil votos pela Bahia, Marighela foi deputado federal de 1946 a 1947, liderou a bancada de 14 parlamentares comunistas, até que teve o seu mandato cassado. Segundo Edson, ele proferiu 196 discursos em dois anos, todos de denúncias da opressão e contra o imperialismo. Ele, que também editou a revista Problemas, só entrou para a luta armada quando não enxergou alternativa e em meio à qual foi assassinado em 1969. "O ato de hoje cumpre um importante papel de trazer Mariguella de volta ao espaço do Legislativo", concluiu Antonio Neto, coordenador nacional do MST.

Titulo de Cidadão Paulista para Marighella

Pronunciamento de Aton Fon, representando os companheiros do Comandante Carlos Marighella durante ato de entrega do Título de Cidadão
Paulistano, in memoriam, a seus familiares, no dia 4 de novembro de
2009.

"Exmo. Sr. Vereador Ítalo Cardoso, DD. Presidente desta Sessão e
proponente desta homenagem a Carlos Marighella;



Companheira Clara Charf, companheira de vida do Comandante Carlos
Marighella, na pessoa de quem saúdo todos os companheiros e
companheiras presentes a este ato,



Há quarenta anos, num dia 4 de novembro, foi assassinado Carlos
Marighella. Parece-nos significativo que tanto tempo passado tantas
pessoas continuem se reunindo para saudar sua luta e seu exemplo.

Como nos parece significativo que mais uma vez essa reunião se faça em
torno do lema "MARIGHELLA VIVE!"

Afinal, o que leva tantas pessoas a seguirem reverenciando a memória
desse militante, desse dirigente revolucionário, reafirmando sua vida?

Frequentemente ouvimos, dos dias em que a vida de Marighella foi
roubada pela ditadura militar, que era um tempo heróico. Mas, se o era
porque nele o herói teve vida, foi também o tempo heróico que exigiu
sua heróica ação.

Pelas terras do Brasil, pelas ruas de São Paulo, Carlos Marighella
andou enfrentando ditaduras, enfrentando os inimigos do povo, os
inimigos do proletariado.

Mesmo quando o país viveu tempos de legalidade e constitucionalidade,
Marighella não deixou de enxergar a necessidade de seu heroísmo e
perseverou na dedicação à luta pelo socialismo, demonstrando com sua
vida e atitudes que sempre havia tempo, que sempre havia necessidade
de um Carlos Marighella.

Um Carlos que alertasse a esquerda para os riscos de confundir a
tática com a estratégia, e de cair nas armadilhas quer do reformismo,
quer do esquerdismo, dizendo em "A crise brasileira":

"Uma tática decorrente da estratégia revolucionária é por si mesma
revolucionária, o que nada tem a ver com sectarismo e esquerdismo.
Trata-se de levar as massas à luta contra a ditadura, e substituí-la,
por um governo efetivamente democrático. Os meios empregados são os
que as massas aceitam. Mas os comunistas devem dar exemplo do impulso
revolucionário, que não se obtém - evidentemente - baseando nossa luta
numa perspectiva pacífica."

Um Marighella que em momento algum baixasse a guarda ante o
imperialismo, reafirmando, na mesma obra, que:

"Com o mesmo sentido de falta de substância ideológica surgiu a falsa
tese da "nova tática do imperialismo". Segundo essa tese, o
imperialismo norte americano não estaria interessado em golpes e
ditadura. O golpe de primeiro de abril, inspirado e promovido pelos
Estados Unidos com o apoio em seus agentes internos e no fascismo
militar brasileiro, invalidou essa teoria, cujo principal resultado
foi deixar-nos desprevenidos e perplexos ante o golpe da direita." (A
Crise Brasileira)

Lembrava-nos ainda hoje e lembra-nos costumeiramente Clara Charf, sua
companheira de vida, que o Comandante sempre foi capaz de separar as
divergências políticas das lutas pessoais, o que lhe garantiu sempre
não apenas a discussão que enriquecia seu conhecimento e sua
militância, mas aquela ternura de que falava o Che que não se deve
perder quando mais se endureça. Isso porque nunca esqueceu ele que,
divergindo no campo dos lutadores do povo, identificamo-nos no
objetivo da libertação popular. E por isso, mesmo no momento de sua
ruptura com o PCB expressou veementemente:

"Embora existam dificuldades para a união das forças populares, elas
não podem ter o mesmo caráter das divergências que nos separam das
correntes políticas ligadas ao imperialismo." (Crítica às Teses do
Comitê Central)

Essa mesma busca e expressão de unidade, tinha-a clara quando à
aliança dos operários com os trabalhadores do campo,

“No esquema estratégico brasileiro o pedestal da ação do proletariado
é o trabalhador rural. A aliança dos proletários com os camponeses é a
pedra de toque da revolução brasileira. Não se pode fazer a luta pela
democracia e pelas reivindicações nacionalistas, separando uma e outra
da luta pela terra e pelos interesses das massas camponesas. É um erro
relegar para o momento da decisão da decisão estratégica o processo de
luta, visando a atrair a massa camponesa.”

E isso adquire especial relevância para nós hoje, quando as forças da
reação, as forças do latifúndio afiam suas lanças e suas flechas para
agredir o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, obrigando
todos nós a nos mobilizar em defesa dos trabalhadores do campo.

Do mesmo modo, Carlos foi Marighella quando buscou tenazmente a
superação dos sectarismos que separaram durante tanto tempo os
cristãos dos marxistas, ensinado que

“Não importa que os moços de hoje estejam filiados a correntes
filosóficas diversas. Aceitem ou não o primado da matéria e do reflexo
do ser sobre a consciência, militem no campo do materialismo ou nas
hostes do espiritualismo, como é o caso da plêiade de católicos
preocupados com a questão social, os jovens avançam em busca de uma
saída. O marxismo contemporâneo não poderá deixar de fasciná-los e
estimular-lhes o espírito criador. Com a audácia e o entusiasmo que
lhes são próprios, os jovens continuarão afluindo para o campo de
luta.” (Porque Resisti à Prisão)

Mas, se Carlos soube ser sempre Marighella, se soube sempre ser o
herói que o momento exigia isso se deveu a sua clara visão de que a
existências das condições objetivas para a luta revolucionária não
implicava necessariamente – é verdade – a existência da consciência
revolucionária no seio do povo. Mas essa mesma consciência, só a ação
dos próprios homens, dos próprios revolucionários, poderia trazê-la à
luz:

"A consciência revolucionária, todavia, não se adquire
espontaneamente. Na dialética marxista, quando se trata do fenômeno
social, um processo de desenvolvimento jamais se efetua por via
espontânea. A luta (não espontânea) é um fator imprescindível e
fundamental para que o processo de desenvolvimento chegue às últimas
conseqüências."

"Isto implica em atuar com firmeza onde quer que haja massas ­ nos
sindicatos, nas organizações populares, feministas, estudantis,
camponesas e quaisquer outras. O objetivo de tal atuação é desencadear
e apoiar lutas e estimular a combatividade das massas." (A Crise
Brasileira)

Marighella vive!

Marighella vive porque seu sonho, sua aspiração, a aspiração de que
cesse a exploração do Brasil pelo Imperialismo, do proletariado pela
burguesia, do camponês pelo latifúndio e pelo agro-negócio, do homem
pelo homem, continua viva.

Mas o Comandante Carlos Marighella que homenageamos não vive no
retrato na parede, nem vive nas lembranças que guardamos.

Marighella vive nesses ensinamentos e em suas atitudes que conformaram
nossa herança.

Por isso, somente se soubermos corresponder às necessidades que a
história põe diante de nós, Marighella poderá seguir vivendo em nossas
atitudes as quais haverão de legar aos que virão na nossa esteira, na
esteira desses herdeiros de Marighella, a herança do mundo solidário.

Assim como Carlos Marighella soube, em seu tempo, resgatar o grito de
combate dos campos de Guararapes e das batalhas da Independência nos
campos do Recôncavo baiano – “Ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo
Brasil” -, saibamos nós também resgatar esse compromisso e essa
certeza de que haveremos de libertar nosso povo e nosso país:

Pátria Livre! Venceremos!"

Carlos: mulato, baiano, comunista, brasileiro

Os 40 anos passados desde sua morte na luta revolucionária de resistência à ditadura, só multiplicaram a imagem de Carlos Marighella, como dirigente revolucionário brasileiro e latinoamericano. Identificado com os projetos revolucionários de libertação da América Latina desde a década de 30, teve um protagonismo central nos momentos mais difíceis vividos pelo PCB depois do golpe de 1964, quando debateu as razões do golpe e os novos horizontes de luta da esquerda brasileira.

Carlos é o protótipo do brasileiro. Amado na sua Bahia, com quem o povo baiano se identifica, como se identifica com Caimmy, com a Menininha do Gantuá, com tudo o que é expressão genuína daquelas terras tão brasileiras.

Filho de uma negra escrava, Maria Rita, linda, com pai de origem italiana, Augusto, Carlos é uma das expressões mais genuínas da mestiçagem do povo brasileiro. As conversas com os vizinhos da casa modesta onde nasceu e cresceu, em Salvador, as fotos com os colegas de escola, com os amigos, revelam o mulato sestroso, conversador, gentil, sensível, típico dos bairros populares da velha São Salvador.

Como quem chegou à adolescencia naqueles anos-chave da década de 30, Carlos se identificou profundamente com os projetos revolucionarios da década, antes de tudo com a lideranca de Prestes no PCB, depois da aventura extraordinaria da Coluna. Viveu Carlos aí a primeira grande experiência, que o marcaria pelo resto da vida, consolidando nele a opção revolucionária.

Não protagonizou com sua participação os grandes debates no seio do PC ao longo das décadas seguintes. Seu protagonismo ficou reservado para os momentos mais difíceis vividos pelo Partido, logo depois do golpe de 1964. Já sua resistência à prisao na Cinelândia, no Rio, poucos días depois do golpe, demonstrava a atitude de rebeldia e de resistência que Carlos imprimiria à sua atitude e à que convocava aos brasileiros.

Dessa vez Carlos foi o principal protagonista dos debates internos do PCB, sobre as razões do golpe e os novos horizontes de luta da esquerda brasileira. Ele se identificou de forma direta com a dinâmica proposta pela Revolução Cubana, que aparecia como uma alternativa real para os países em que as elites dominantes apelavam para a ditadura, diante das ameaças dos movimentos populares, optando pelo projeto norteamericano da Doutrina de Segurança Nacional.

Carlos conclamou a resistência a aderir ao projeto da luta armada, sob a forma da guerra de guerrilhas, rompendo assim com o PCB e fundando a ALN. Junto com a VPR, dirigida por Carlos Lamarca, protagonizaram a versão mais radical da resistência clandestina à ditadura militar, de que o espetacular sequestro do embaixador dos EUA – com a libertação de 15 militantes da resistência e a leitura de declaração contra a ditadura em cadeia nacional de rádio e televisão – foi uma de suas mais expressivas manifestações.

Os 40 anos passados desde sua morte na luta revolucionária de resistência à ditadura, só multiplicaram a imagem de Carlos, como dirigente revolucionário brasileiro e latinoamericano. Carlos, mulato, baiano, comunista, brasileiro.



Carta maior

Fotos do Ato na Cinelandia







Fotos do Ato em homenagem ao Marighella, onde mudamos o nome da Praça Floriano, na Cinelandia RJ, para Praça Carlos Marighella. Apartir de agora os movimentos sociais podem chamar a praça de Carlos Marighella.

Marighella Vive!!!

Noticia no Estadão

Militantes querem nome de Marighella em praça do Rio
MARCELO AULER - Agencia Estado

RIO - Antigos militantes da Aliança Libertadora Nacional (ALN), organização de esquerda que foi comandada por Carlos Marighella, lançaram hoje a campanha para dar seu nome à Praça Marechal Floriano, no centro do Rio, tradicionalmente conhecida como Cinelândia. Hoje faz 40 anos que o ex-guerrilheiro foi assassinado em São Paulo.

"Esta praça é simbólica, foi palco das principais campanhas políticas desde a do Petróleo é Nosso. Ela abrigou a passeata dos 100 mil. Por aqui começaram o terminaram grandes outras passeatas e manifestações, como a da Anistia e das Diretas Já", lembrou o também ex-comandante da ALN, Carlos Eugênio Sarmento da Paz, ao justificar o movimento para dar à praça o nome de Marighella.

Hoje, simbolicamente, os participantes da manifestação - havia representantes do PT, PSB, PCdoB, PCB e PDT - colaram nas placas da praça o nome do ex-líder da organização de esquerda. Na Câmara Municipal, por iniciativa do vereador Leonel Brizola Neto, tramita um decreto legislativo lhe dando o título de cidadão carioca.

Na próxima semana o movimento dará início à coleta de assinaturas em um abaixo assinado para pressionar os vereadores cariocas a aprovarem a legislação necessária para mudar o nome da praça que também abriga a Câmara.




Marighella.40 anos depois.

Entrevista especial com Denise Rollemberg

“Ele foi o grande líder da luta armada no Brasil”. Assim, a pesquisadora e historiadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Denise Rollemberg, define Carlos Marighella, político guerrilheiro brasileiro e um dos principais defensores da criação de um estado socialista no Brasil. Em entrevista concedida, por telefone, à IHU On-line, Denise apresenta o histórico de Marighella, apontando suas principais contribuições à história da luta armada no país. O cenário da ditadura militar e o isolamento da prática da luta armada, também foram temas abordados por Denise. “É importante perceber que a ditadura não foi militar, mas civil e militar. Isto deve ser pensado para compreender porque a luta armada ficou tão isolada. Foi porque a sociedade foi muito participante da ditadura”, revela.Denise Rollemberg possui graduação, mestrado e doutorado em História pela Universidade Federal Fluminense, pós-doutorado em História pela Universidade de Paris X e em Sociologia pela Universidade de Campinas/Unicamp. Atualmente, é professora da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora do Núcleo de Estudos Contemporâneos/NEC-UFF.Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quem foi Carlos Marighella e por que se transformou em um mito?


Denise Rollemberg – Carlos Marighella é uma figura antiga do Partido Comunista que tem todo um percurso que acompanha a própria história do PCB, e o que é interessante nele, assim como outros militantes do partido, é que ele radicalizou esse percurso. E mais ainda: ele fez uma ruptura. Ele foi um sujeito que entrou no partido muito cedo, com 17 anos, e, a partir de 1964, começou a questionar o papel desarticulado, pois a política do PCB é associada aos trabalhistas e teria então desmobilizado os movimentos sociais, no sentido de uma possibilidade de resistência ao golpe. A ruptura dele se dá mais adiante, mas ele ficou, a partir dali, pensando como outros segmentos das esquerdas na época, o que teria sido um papel nefasto do Partido Comunista, nesse momento.Outras figuras do partido também fizeram um percurso semelhante, como Jacob Gorender [1] e Mario Alves [2]. O que ele vai radicalizar é o caminho que tomou em 1967. A radicalização dele tem a ver exatamente com o fato de ter organizado a Ação Libertadora Nacional (ALN), uma organização de luta armada que foi uma das mais importantes do Brasil. Ele foi o grande líder da luta armada no Brasil.


IHU On-Line – Dentre os grupos de esquerda organizada e que optaram pela luta armada nos anos 1960 pode-se dizer que Marighella desfrutava de reconhecimento e liderança?


Denise Rollemberg – Sim. Havia muita disputa entre as organizações, embora elas tenham fragmentado bastante. Foram dezenas de organizações que disputaram a liderança na luta armada. Sem dúvida, Marighella é a figura mais expressiva, junto com Carlos Lamarca [3], dessa opção revolucionária da ação armada. São duas trajetórias muito diferentes, mas que se encontram em algum momento.


IHU On-Line – Como se deu o rompimento de Marighella com o PCB e a criação da Ação Libertadora Nacional (ALN)?


Denise Rollemberg – Muitas vezes, aparece em jornais Aliança ao invés de Ação. Não é simplesmente uma troca de palavras, mas há todo um projeto da ALN que estava centrado nessa discussão. Até 1964, o PCB falava muito na questão da aliança junto com os trabalhistas dentro da política de associação com os trabalhadores. A ruptura do Marighella com o partido vem centrada nesse sentido, de que não era mais o caso de uma política de aliança, mas sim centrada numa política de ação. Em 1967, houve um congresso de comunistas em Cuba, e Marighella foi. Ainda que ele fizesse parte do PCB nessa época, ele não foi representando-o. A ida dele, portanto, foi uma ruptura com o partido. Cuba queria, naquele momento, organizar uma espécie de internacional latino-americana que teria essa função de organizar e coordenar as lutas armadas na América Latina, com uma política muito diferente da política do PCB. A partir desse momento, ele assume o papel de liderança revolucionária com o apoio de Cuba, que o reconheceu como um dirigente revolucionário capaz de representar e fazer a revolução no Brasil, não mais dentro das concepções e orientações do Partido Comunista, mas numa guinada voltada para outro sentido.


IHU On-Line – Ideologicamente, como poderia ser definida a Ação Libertadora Nacional (ALN)?


Denise Rollemberg – A ALN era uma organização foquista, ou seja, defensora do foco guerrilheiro cubano, fundada nos moldes de Cuba. Quando Marighella foi para Cuba e se tornou o grande líder, até sua morte, apoiado por Cuba para implementar a revolução no Brasil, ele adere à teoria do foco, mas com muitas ressalvas também. Apesar de ele ter ficado tanto tempo no partido, numa política muito rígida, com a ruptura, Marighella obtém uma autonomia muito grande em relação a isso, exatamente pelas críticas que ele faz à burocratização do PCB. Então, a ALN vai ser fundada dentro da necessidade de valorizar a ação, ao mesmo tempo, ela é uma crítica à formação de um partido. O partido era necessário para fazer a revolução, mas não mais aquele partido tal qual o Partido Comunista. Daí que a ALN não vai assumir um nome como Partido da Ação Revolucionária.


Outra característica importante é a autonomia que seus dirigentes, encarnados no Marighella, defendiam. Eles diziam que a organização não deveria ser verticalizada, hierarquizada, exatamente criticando a estrutura dos velhos partidos comunistas. Pelo contrário, a organização deveria ser formada a partir de uma ideia horizontalizada, na qual os militantes que tivessem empenhados na luta revolucionária não precisavam mais passar por uma autorização da hierarquia partidária. As ações armadas deveriam ser organizadas em grupos de ação e estes teriam uma autonomia para fazer as suas ações armadas. Marighella inverte completamente a organização, suas ideias invertem completamente essa ordem de um partido revolucionário verticalizado para uma organização horizontal, na qual os militantes teriam muita autonomia para desenvolver suas ações armadas. E a questão do foco foi lida pelo Marighella de uma forma muito particular. Um apoio, sim, de Cuba seria importante para receber e incorporar os apoios disponíveis, principalmente, por toda a simbologia e a importância de Cuba naquele momento, na América Latina e no comunismo internacional, mas que não ficasse totalmente dependente de Cuba, refém da ajuda recebida. A revolução cabia aos revolucionários brasileiros. Foi uma organização muito diferente no sentido de que ela não se adapta a nenhum padrão rígido, exatamente diante da experiência de Marighella de tanto tempo no Partido Comunista. Ele cria uma organização muito mais flexível, em termos de hierarquias, ideologias, adaptando muitos vetores, e o resultado disso seria a própria ALN.


IHU On-Line – Qual era o conceito de revolução de Marighella?


Denise Rollemberg – É uma revolução de transformação e que passa, ao mesmo tempo, pela libertação nacional, com duas etapas muito rigorosamente separadas, tal qual o partido discutia, mas alguma coisa que a libertação nacional imediatamente levaria à revolução socialista através da ação armada. Ele mantém a ideia da libertação nacional nas duas etapas, mas ao mesmo tempo funde-as. Essa é a concepção de revolução dele, que mantém a perspectiva, mas ao mesmo tempo rompe com ela. Isto dentro da maneira como ele via Cuba, as possibilidades de fazer a revolução a partir do foco guerrilheiro.


IHU On-Line – A concepção da guerrilha do “foquismo” de Marighella se opõe a de Che Guevara e Regis Debray inspirada no maoísmo?


Denise Rollemberg – Ele tem uma leitura do foco guerrilheiro que é exatamente isso, a perspectiva do Che Guevara e do Regis Debray. Mas ele adapta. Vai receber o apoio urbano e vai aparecer para Cuba como a grande liderança revolucionária, mesmo depois de sua morte, esse apoio de Cuba a ALN vai se manter. Ele não faz toda a revolução no Brasil ou da luta armada depender exclusivamente do foco. O foco seria um elemento importante, mas mais um entre tantos outros.


IHU On-Line – Contextualizando historicamente a luta armada, quais foram os acertos e erros de Marighella?


Denise Rollemberg – Acho que o grande acerto, se formos pensar dentro desta linha do que acertou e do que errou, foi lutar pela revolução, pela transformação da sociedade, contra um conformismo, contra a ditadura. Não só resistir à ditadura, mas ir além desta luta. Poderíamos dizer até mesmo que, antes mesmo de 1964, ele estava lutando contra o capitalismo, pelo socialismo. Esse inconformismo com o status quo, seja ele dentro de um regime democrático como era no regime pré-1964, ele lutava pela transformação do Brasil. Acho que se pensarmos dentro desta perspectiva, que não é a óptica do historiador, de acerto e erro, a grande importância é isso. Quem faz erra e acerta, quem não luta erra sempre.

Acho que o inconformismo é não colaborar com a ditadura, com as injustiças é um legado importante. A ALN, assim como todas as outras organizações, acabou enveredando por um militarismo muito rigoroso, o que na verdade tem a ver com a organização, mas tem a ver também com o isolamento em que essas organizações ficaram no Brasil. Este isolamento delas com relação à sociedade tem a ver exatamente com o fato de que a sociedade brasileira, desde o final dos anos 1970, participou e apoiou muito a ditadura. Segmentos importantes da sociedade, não só das classes média e média alta, mas setores populares receberam de uma forma muito alegre a instauração do regime e apoiou o regime durante um bom tempo. Esta ideia de que a sociedade brasileira resistiu contra a ditadura, que a ditadura é uma questão dos militares e não da sociedade, é uma construção, a partir do fim dos anos 1970, que é memória e não história. É importante perceber que a ditadura não foi militar, mas civil e militar. Isto deve ser pensado para compreender porque a luta armada ficou tão isolada. Foi porque a sociedade foi muito participante da ditadura.


Notas:
[1] Jacob Gorender é um dos mais importantes historiadores marxistas brasileiros. Jovem, lutou na II Guerra Mundial, na Itália, como integrante da Força Expedicionária Brasileira. Foi militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do qual saiu, nos anos 60, para participar da fundação do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Foi preso e torturado quando da ditadura militar.


[2] Mário Alves de Souza Vieira foi um político brasileiro, um dos fundadores do PCBR. Destacou-se por ser um dirigente comunista estudioso do marxismo-leninismo.[3] Carlos Lamarca foi um militar que desertou do exército durante a ditadura militar e se tornou um guerrilheiro comunista. Como guerrilheiro, integrante da Vanguarda Popular Revolucionária, foi, juntamente com Carlos Marighella, um dos principais opositores armados à ditadura militar.